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30 de jul. de 2014

Para dono de loja de automóveis, ciclovias são “uma agressão a quem trabalha”

Do Estadão, publicado na internet na sexta-feira, 18 de julho de 2014, em matéria intitulada “Comerciante bate boca com secretário em inauguração de ciclovia” (íntegra aqui). O fato ocorreu durante inauguração de novo trecho da ciclovia do centro de São Paulo.
"Na entrega do trecho, Tatto chegou a discutir com um comerciante que reclamava da retirada de vagas na rua para estacionamento. “Existe uma agressão a quem trabalha”, reclamou Sebastião Juarez de Menezes, de 64 anos, proprietário de uma loja de veículos no cruzamento das ruas Helvétia e Guaianases.
Menezes questionou o secretário sobre a falta de diálogo. Recebeu como resposta o aviso de que todas as avenidas terão, em tese, ciclovias. “Está comunicado.” 
O dono da loja de carros reclamou da transformação do espaço em ciclovia. Talvez por falta de entendimento, talvez por acreditar que o espaço público viário era uma extensão da sua loja, talvez por considerar que a promoção da bicicleta seja ruim para suas vendas de automóveis. Mas podemos afirmar, com boa dose de certeza, que há bastante preconceito contra ciclistas nessa afirmação.
A começar por dizer que “existe uma agressão a quem trabalha“. Pois então quem anda de bicicleta é tudo vagabundo? Poxa, Seu Juarez… quem anda de bicicleta também trabalha! E além do mais, também tem muita gente ociosa andando de carro pra lá e pra cá, certamente em quantidade (e arriscaria dizer em proporção) maior do que quem está de bicicleta. Tem gente até que nunca trabalhou nem pra pagar o tal do carro, veja você!
Essa afirmação transmite ainda uma visão extremamente utilitarista das ruas, muito comum a quem tem como ofício dirigir o dia todo: as vias seriam feitas “para quem trabalha”, para serem usadas a trabalho. Quem está passeando atrapalha os outros. Sob essa ótica, quem está de férias deve se trancar dentro de casa, né, Seu Juarez? Porque se sair às ruas para o que quer que seja, estará atrapalhando quem está a trabalho, que nessa teoria ultrapassada (sem trocadilhos aqui), teria maior direito a usar o espaço público. Ruas, portanto, não seriam feitas para brincar, para passear, para namorar, para viver… somente para dirigir. E a trabalho!
O comerciante – que vale repetir: é dono de uma loja de automóveis (a qual, segundo o Google Street View, comercializa táxis no endereço apontado pela matéria) – disse que existe uma agressão a quem trabalha. Existe sim, seu Juarez, uma agressão forte, violenta, a quem trabalha e usa a bicicleta para chegar ao seu emprego. E isso ocorre em vários aspectos, até mesmo no discurso de algumas pessoas. Um discurso que tem sua parcela de responsabilidade por ameaças e tentativas conscientes de lesão corporal por parte de motoristas intransigentes, que constantemente matam, mutilam e deixam sequelas em corpos, almas e famílias de outros cidadãos, que cometeram o único crime de usar uma bicicleta para se locomover.
Esse discurso e essas atitudes impedem que mais pessoas usem a bicicleta, assustando e afastando das ruas cidadãos que também trabalham. Ou que não trabalham, mas ainda assim têm o mesmo direito à cidade do que quem usa as ruas para ganhar seu dinheiro honestamente a bordo de um carro branco. Ou o mesmo direito à cidade de quem critica os ciclistas por “atrapalharem” nas ruas, mas ainda assim reclama quando se cria uma área segregada para sua circulação. E o mesmo direito à cidade, aliás, de quem coloca uma placa irregular na calçada para alavancar suas vendas… Essa cidade é mesmo cheia de agressões, né, Seu Juarez?
Desejo-lhe sucesso nos negócios, Seu Juarez. De verdade. Lembre-se que quem abandona o carro para usar a bicicleta passa a usar mais o táxi do que quando dirigia – ou seja, a bicicleta ajuda a aquecer o mercado que consome a mercadoria que o senhor vende! E é bom o senhor se acostumar, porque os tempos são de mudança. Século XXI, Seu Juareeez!
Atenção: sem ofender ou fazer bullying com o senhor de idade, hein? Ele tem direito de expressar a opinião dele, assim como temos direito de expressar a nossa neste espaço.
Expresse sua opinião aqui nos comentários! Mas esforce-se para manter o nível, ok? ;)

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